Sábado, 27 de Junho de 2009

Palavras escritas ao léu

Sinto que em meu coração tudo se abate. E o que era sólido e intransponível se torna fluido como o vento, que se dissipa ao menor sinal da presença de algo mais forte. Terá sido uma prova? Ou um sinal de que a realidade é dura e nela não há espaços para idealizações? Acho que no final das contas tudo não passa de uma pitada triste do meu pessimismo exacerbado. Viver é chorar!
Sei que as tais evidências se engancham na nossa mentalidade e nos deixam irracionais. Mas elas são apenas indícios e não fatos! O que interessa mesmo é a palavra empenhada e a convicção no dizer "Eu te amo", porque cada uma dessas três palavras é a medida exata do sentimento que povoa o meu coração que, como disse no começo, sinto se abater. Mas, se, ao dizer "Eu te amo", essas palavras não conseguem ser eficazes não sei a que recorrer. Aprendi desde cedo que é ele o mais forte, e que tudo pode passar, mas só o amor resiste a essas intempéries.
Por enquanto, vou vivendo. Quero apenas sentir o prazer de amar, desinteressadamente, como quem procura uma agulha no palheiro, sabendo que o esforço é vão. Quero o amor, senti-lo, fazer dele a minha própria vida. E isso basta. Não precisa nada mais do que o acariciar e o sentir que da mesma maneira, desinteressada, assim como quem não quer nada, estou sendo amado. E se o amor me falhar, saberei que foi por um golpe da vida. Como falei, viver é chorar!

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Campo de Flores (Com amor, para Raquel Canêjo)

"Deus me deu um amor no tempo de madureza". E quando eu achava que a vida não passaria de um aglomerado de minutos e perderia todo o sentido, eis que ressurgi. Como uma lufada de ar dentro de um ambiente há muito fechado, vivo agora o sentimento extasiante de estar amando. E o amor me veio como se fosse algo bom: primeiro os beijos dados com sabor de pipoca para compensar a falta de iniciativa do cinema; depois, as mãos que suam como sintoma da presença um do outro e exprimem o calor da companhia imprescindível; e, ainda, a satisfação de estar junto de alguém que colore cada vez mais vivamente a minha existência poenta.
Ela tem um sorriso algo maravilhoso, um jorrar constante de alegria em cima de mim e, por isso, me deixa extremamente satisfeito. O olhar dela comunica ao mundo a vivacidade e a força que o amor garante a quem já estava desacreditado. Porque ela é simplesmente a vida. E o seu sorriso alenta o meu coração e me faz sentir que ainda vale a pena viver, pois que tenho um amor. Não apenas uma paixão exasperada e fulgaz, mas algo definitivo, "amor definitivo", definitivamente.
Quero me entregar profundamente a esse amor. Quero senti-lo, colhê-lo como se fosse uma flor que não mais se repetirá. Quero extrair dele a essência da vida, porque ele é o movimento da alma e a força dos sonhos e a suavidade das carícias. Sentir esse amor, decerto, me fará enxergar a vida com olhos de além, porque ele me faz olhar o mundo e vê-lo sempre como algo novo que esteve desde sempre ali. O Amor me fará ter certeza que estou pronto para amar. E assim vou seguindo: cantando, sorrindo e amando. Amando você, Raquel.

Domingo, 16 de Novembro de 2008

I have a dream...


No último dia 04 de novembro, foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama. Espanta saber que, mesmo numa democracia tão consolidada quanto à daquele país, nunca um negro teve pelo menos a oportunidade de pleitear ao cargo de chefe da nação. A vitória de Obama foi uma prova de que não cabe mais distinção racial, nem, tampouco, discussão sobre a capacidade que tem os de raça diferente da nossa. Não é dada a ninguém o poder de julgar o outro pelo que vê externamente. O mundo dá provas de que a mudança vem nos braços de um homem que, além da cor da pele, é descendente de africanos islâmicos.
Impossível não lembrar do maior militante pela igualdade racial: Martin Luther King Jr. Em seu famoso discurso, I have a dream, proferido há exatos quarenta anos, o pastor já idealizava um mundo livre de todo preconceito, além da comunhão entre pessoas de raças diferentes. Sabemos, claro, que o preconceito está longe de acabar, mas, pelo menos, podemos sentir orgulho em ver um negro assumir o posto de homem mais poderoso do mundo. A eleição de Obama mostra que caminhamos, a passos curtos ainda, rumo ao mundo construído pelas palavras apaixonadas de Luther King.
Resolvi, como forma de homenagear ambas as figuras, colocar um trecho desse discurso que comove a cada palavra que os olhos conseguem captar:

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal."

I have a dream that one day on the red hills of Georgia, the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.

I have a dream today!

I have a dream that one day, down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of "interposition" and "nullification" -- one day right there in Alabama little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.

I have a dream today!

I have a dream that one day every valley shall be exalted, and every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plain, and the crooked places will be made straight; "and the glory of the Lord shall be revealed and all flesh shall see it together."²

This is our hope, and this is the faith that I go back to the South with.

With this faith, we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope. With this faith, we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood. With this faith, we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.

And this will be the day -- this will be the day when all of God's children will be able to sing with new meaning:

My country 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing.

Land where my fathers died, land of the Pilgrim's pride,

From every mountainside, let freedom ring!

And if America is to be a great nation, this must become true.



Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Então vamos para vida!!!


É impressionante como temos sempre o pensamento de deixar tudo para depois. "É sempre para o futuro aquele orgasmo", como dizia Drummond. Talvez seja culpa da nossa herança cristã, que nos ensinou a viver sempre em função do porvir, da vida eterna, do paraíso. Talvez seja culpa nossa mesmo, que temos a ilusória sensação de que somos rígidos como diamantes quando, na verdade, somos frágeis como cristal. Raras vezes conseguimos perceber que a vida é agora, que não existem caminhos a ser vislumbrados, já que é com o caminhar que vamos construindo nossa trajetória.
Assisti a um filme que tratava bem de perto essa questão do Carpe diem, viver cada dia como se fosse uma flor que não se repetirá. Trata-se do filme Antes de partir, estrelado por Morgan Freeman e Jack Nicholson. Diria que o filme é ótimo se não fosse o motivo pelo qual eles decidem se lançar a viver a vida. Os dois, doentes de câncer, só se permitem respirar os ares do já quando se vêem fadados à corrosão dolorosa da doença. E como o vídeo imita a vida, contrariando o que dizem as más línguas do senso comum, aquelas duas personagens nada mais são do que o retrato fiel da nossa frágil condição, como também da nossa pretensão a querer ser Deus. Foi preciso algo mais sério para que eles percebessem a raridade da vida e o modo como se ela se entrega todos os dias a espera de que a desvirginemos
Como todos sabem, é preciso correr riscos. Entregar-se ao brilho louco do amanhecer que apenas anuncia que mais um dia suplica para que o desbravemos com a mesma avidez que corre uma corsa anseiando pelas águas. Viver é tirar fotografias: se deixarmos para depois, as paisagens mudarão e as nossas lentes só conseguirão captar as imagens frias e inefáveis da decomposição.

Sábado, 24 de Maio de 2008

É desconcertante rever um grande amor

Para os olhos secos, rever depois de tanto tempo. Ter diante dos olhos a imagem redentora. Reativar os sentimentos adormecidos. Fazê-los banhar os campos secos da memória e tornar verde o ambiente árido e monocromático. Sentir o hálito de outros tempos, aqueles em que os lábios buscavam-se sedentos e as mãos não se satisfaziam com o tangível. Os tempos de trangressão da ordem, do previsível, da entrega mútua sem a mensuração das consequências. Do pensar constante no outro para, enfim, vir o momento em que os braços, tentáculos sequiosos, tentaram prender a imagem mais terna para nunca mais deixá-la escapar.
A sensação de estar ali, lado a lado. Respirar o mesmo ar, insuflar os pulmões com as lembranças vívidas e a mente com o gosto ímpar das papilas linguais. Poder ter em um instante fulgaz a imagem mais convincente de que o amor é a coisa mais alegre, que o amor é boomerang, que a vida é o eterno retorno das coisas boas e infindáveis.
Lá, naquele dia, senti o meu coração tremer. De repente, a força e o vigor me abandonaram. Fiquei à mercê dela, submisso a tudo o que ela quisesse fazer comigo, mesmo se fazer nada tivesse sido a sua opção. Bastava simplesmente um olhar, um sorriso que fosse e tudo seria bênção. Migalhas. Não importa. Estaria disposto a recolhê-las para sustentar o meu espírito já debilitado e desprovido de esperanças.
O mais importante aconteceu. Estivemos juntos no mesmo lugar. O pensamento errante ia de um lugar para o outro até voltar para o ponto de que partiu e de onde surgira: voltei a sentir o frescor do sentimento convalescente e aquela visão foi uma lufada de ar que arejou todo um ambiente tragado pelo descaso.
Mais do que nunca, aquilo me fez bem. Passei dias inteiros ruminando os momentos bons, tentando-os reconstruir para resistir: "um tempo que refaz o que desfez". Um período da vida todo colado, caco a caco, até estar completo o mosaico das vivências. As lembranças foram todas refeitas para poder completar o resto de mim que estava incompleto.
A identidade poderia ser revelada, mas é melhor deixar estar. Seria melhor dizer o nome? Ele está dito no texto. Descoberto, eis a chave da minha felicidade. Fiquem todos sabendo.

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Chegar aos vinte e cinco (Para a minha amiga Caroline Mabel, que, como eu, chegou aos vinte e cinco)


Vi que de repente cheguei aos vinte e cinco. Um quarto de século! O tempo fora implacável comigo, levando com sua força devastadora as horas que, se eu pudesse, deixaria intactas no meu coração. Mas como a vida é um processo contínuo de criação de miasmas de morte, há de ser conformar. Diz Cassiano Ricardo que “desde o instante em que se nasce já se começa a morrer” e, certamente, sabem os poetas que “a vida é uma agitação feroz e sem finalidade”, como no verso magistral de Manuel Bandeira. Apesar de tudo, há vantagens em se chegar aos vinte e cinco.

Antes dos vinte e cinco só se tem um rascunho da vida. Os anos que antecedem os vinte e cinco são peças do mosaico que vai se formando para, depois, apresentar uma imagem que deverá ser o projeto para os anos que virão. Para se chegar aos vinte e cinco é preciso ir galgando, degrau a degrau, uma longa escada que, ao fim da subida, será o primeiro lugar de onde se vislumbrará alguma coisa mais distante, da qual teremos só a ânsia de alcançar. Aos vinte e cinco já conseguimos olhar para o abismo que nos espera até a derrocada final. Até a queda súbita, existe todo um ritual de preparo. Por isso, chegar aos vinte e cinco é estar preparado para voar sobre o abismo até que, como Ícaro, nossas asas derreterão e, aí, cairemos de uma vez até sermos abraçados pelo chão, berço comum de todos os homens.
Até os vinte e cinco, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao mestrado, pelo menos. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.
Na verdade, fazer vinte e cinco anos não é para qualquer um. Fazer vinte e cinco anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.
Claro que existem outras datas que se devam comemorar. Os dezoito são, por assim dizer, uma prévia dos vinte e cinco e, por isso, devem ser recepcionados como se o mundo estivesse chamando para as responsabilidades que os vinte e cinco anos reservam para os que lá chegam. A partir dos dezesseis já se pode votar, alguns já até tiveram sua primeira experiência sexual. Mas o prazer de saber que o tempo se encarregou de depurar o sentimento bruto só se sente aos vinte e cinco. Quem ainda não tem vinte e cinco anos só vê pelo buraco da fechadura a imagem completa do prazer absoluto. Vê parcialmente o corpo nu da vida que se insinua lúbrica nos chamando para despi-la. Esse é o meu sentimento. Cheguei aos vinte e cinco: completei a etapa inicial que leva o homem até o fim.

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Primeiro de Maio - Chico Buarque

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã